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O cientista que podia ser poeta.

O cientista que podia ser poeta.

por Anabela Saraiva -
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O cientista que podia ser poeta

Desengane-se quem pensa que Luís Arnaut Moreira é homem de subjectividades. É mago da Ciência, pura. Podia ser poeta, mas não. Fez-se cientista e desenvolveu um método revolucionário de administração de medicamentos que lhe valeu o prémio BES Inovação.

A culpa foi da biblioteca itinerante da Gulbenkian. Disso Luís Arnaut Moreira não duvida. 'Quando era miúdo vivia na província e uma vez por mês passava a biblioteca da Fundação Gulbenkian, uma carrinha cheia de livros, e eu requisitava todos os que me deixavam', conta. É por causa disso que hoje é cientista no Departamento de Química da Universidade de Coimbra. É também por isso que ele e a sua equipa venceram o prémio BES Inovação com o projecto ‘Instrumentação Médica’, que vem revolucionar o método de administração de medicamentos, com um dispositivo que permite a passagem de proteínas através da pele para tratar ou prevenir doenças.

Arnaut Moreira rejeita todas as subjectividades. É um homem da Ciência. Exacto. Logo, não chama só a si o protagonismo. 'Este é um trabalho de equipa. Quem trabalha comigo não é treinado para seguir instruções, mas para ser criativo e inovador', explica. 'Se tenho algum papel é apenas na origem de algumas ideias'. A modéstia é sincera e justificada: 'sou um colaborador dos meus colaboradores, não mais do que isso'.

Na verdade, a técnica Laser Leap, que conquistou o prémio, foi explorada por Arnaut Moreira, Carlos Serpa e Gonçalo Sá. Na prática, utiliza um dispositivo para abrir os poros da pele, deixando passar o medicamento durante um curto espaço de tempo. Depois, a pele volta ao normal. É indolor, de baixo custo, biocompatível e descartável. Está vocacionada para o tratamento do cancro de pele, administração de insulina e vacinação.

O projecto começou a ser desenhado há 20 anos, altura em que Arnaut Moreira escolheu os Estados Unidos para fazer o pós-doutoramento. 'Lá usavam equipamentos de laser para medir propriedades das moléculas. Quando voltei a Portugal comecei também a fazer esse tipo de estudos'. Depois, no âmbito de outro projecto, surgiu o problema: 'Como administrar, de forma rápida e eficaz, medicamentos através da pele?'. Ao seu conhecimento, o cientista juntou os trabalhos determinantes de Carlos Serpa e Gonçalo Sá. E deu o passo. Da ciência pura para a aplicação prática. Quase sem querer.

'Associada à Ciência tem que haver uma tecnologia que faça a mediação entre o conhecimento e a prática', considera o investigador, avisando: 'isto podia não dar em nada. A nossa Ciência podia resumir-se ao estudo das propriedades das moléculas sem nunca darmos o salto para o quotidiano. Mas a minha Ciência não ficava pior'.

Quando era criança e vivia em Avelar, os 50 quilómetros que o distanciavam de Coimbra eram uma eternidade. Para fugir ao isolamento, enfiava a cabeça nos livros.

'Dos muitos que requisitava, grande parte eram biografias'. Quase todas de cientistas. 'Nunca achei muita piada à biografia do Einstein, gostei muito da do Edison , que é essencialmente tecnologia, e talvez a minha preferida seja a do Pasteur, cujos trabalhos eram francamente inovadores'.

'Se as biografias da Gulbenkian fossem de poetas, talvez eu tivesse sido um poeta'. Talvez.

PRÉMIO PERMITE CRIAR PROTÓTIPO

O grande prémio BES Inovação vai permitir à equipa de investigadores liderada por Arnaut Moreira construir o protótipo e registar a patente, de forma a que a técnica esteja cada vez mais próxima das pessoas. O galardão tem um valor total de 85 mil euros, dos quais 50 mil em dinheiro, 25 mil de um plano de negócios e 10 mil para o registo de patentes. Depois de vários anos de testes e estudos, os investigadores conseguiram fazer a prova de conceito e publicaram os resultados em revistas científicas reconhecidas. 'A partir do momento em que demonstrámos que era possível, entendemos que tínhamos uma base sólida para propor este trabalho para o prémio BES Inovação', diz Arnaut Moreira, revelando que, apesar de tudo, o facto de vencerem foi 'uma grande surpresa'. O reconhecimento causou ainda 'um efeito particular' que os cientistas não tinham previsto. 'Depois de vencermos o prémio e com toda a divulgação em torno dele, muitas pessoas interessadas e que nos podem ajudar a transformar esta ideia numa realidade entraram em contacto connosco', refere Arnaut Moreira. Considerando que 'a grande inovação vem da Ciência', o investigador lembra: 'nunca foi nosso objectivo resolver o problema das agulhas e acabámos por dar uma contribuição que pode ser útil para acabar com elas em alguns casos. Estamos encantados com isso, mas não vamos afunilar as nossas car-reiras neste projecto'. Arnaut Moreira garante que 'se surgirem problemas intransponíveis neste projecto', seguirá o seu 'caminho' e continuará a 'fazer Ciência'.