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PÚBLICO (arquivo)

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por Anabela Saraiva -
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Cientistas portugueses descrevem selecção natural a ocorrer no laboratório
Mosca-do-vinagre mostra que a evolução não ocorre da mesma forma duas vezes vazio.gif
11.01.2009 - 22h30 Nicolau Ferreira
Sorri Darwin, a selecção natural foi comprovada mais uma vez e a genética por trás da evolução parece ser como o mundo, só gira para a frente, mesmo quando se tenta imitar o passado. A descoberta veio do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, e a estrela é a mosca-do-vinagre, mas a história começou em 1975 quando uma equipa norte-americana submeteu vários grupos de uma população selvagem de Drosophila melanogaster a ambientes diferentes. Passado muitos anos e várias gerações de moscas depois, cada nova população estava adaptada ao seu ambiente.

Em 1996, Henrique Teotónio – investigador e actual líder de um grupo no IGC – foi para a Universidade da Califórnia, em Irvine, fazer o doutoramento em evolução com estas moscas. “O que eu fiz foi muito simples, foi pôr parte dessas populações diferenciadas no ambiente ancestral”, explicou o investigador e primeiro autor do artigo publicado amanhã na revista "Nature Genetics". O que se pretendia era verificar se as populações voltavam ao estado ancestral não só ao nível das características que permitem a sobrevivência e adaptação das populações, mas também ao nível genético.

Na altura, o que se concluiu foi que passado 50 gerações de moscas, todas as populações voltaram a adaptar-se ao ambiente ancestral apesar de muitas características não reverterem ao que as moscas eram. “Há muitas maneiras diferentes de se conseguir o mesmo estado adaptativo”, referiu Teotónio, no entanto faltava saber o que se passava ao nível do genoma.

Para isso, utilizaram-se sete regiões do cromossoma três e comparou-se o grau de diferença da frequência destas regiões entre populações readaptadas ao ambiente ancestral e populações controlo que nunca saíram desse ambiente. Nestas regiões do ADN existem genes com importância nas adaptações ocorridas: ao longo das gerações, os indivíduos que tinham a variação dos genes mais apropriada a cada ambiente sobreviviam e impunham o seu genoma, aumentando a frequência dessa variação.

Ao comparar-se as frequências percebeu-se se a evolução imitava ou não o que ocorreu no passado. “A convergência ao estado ancestral é apenas de 50 por cento, em média, apenas metade das frequências genéticas revertem às frequências genéticas ancestrais”, disse o cientista. Assim, apesar das populações estarem de novo adaptadas ao antigo ambiente, a nível genético são diferentes. “Observámos em tempo real a selecção natural”, explicou o cientista, referindo que a experiência comprova a teoria de Darwin. Como se viu, o passado não se repete.

Dois anos a reproduzirem-se

Desde 1975 ocorreram centenas de gerações de Drosophila melanogaster, alguns grupos adaptaram-se à fome, outros evoluíram para gerações mais rápidas e outros para mais longas. O estudo de Henrique Teotónio durou 50 gerações (15 dias por geração que no total são dois anos), mas foi o suficiente para reverter as adaptações.
N.F.